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Cristianismo falso. Por Nilton Kasctin dos Santos (Professor e Promotor de Justiça)
01/04/2021 23:37 em Opinião. Por Nilton dos Santos

   Afresco de A Última Ceia, provavelmente a representação mais conhecida da Última Ceia. 1498. Por Leonardo da Vinci, no Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão.

  Depois de uma ceia, Cristo decide lavar os pés dos discípulos. Pretende o Mestre com esse ato demonstrar a diferença entre o propósito de seu reino e as tradições religiosas. Mas viciados e cegos pela religiosidade tradicional que classifica e discrimina pessoas, os discípulos não entendem o gesto, e Pedro reage com veemência:

         - Nunca me lavarás os pés. Não sou digno disso.

         Quando Jesus explica que então ninguém deles teria parte no seu reino, Pedro volta atrás:

         - Senhor, não só os pés, mas também as mãos e a cabeça.

         Cristo já havia andado com fariseus, afagado as crianças e feito amizade com mendigos, ladrões, prostitutas, e agora lava os pés dos que o consideram Deus, Rei dos reis, Senhor dos senhores.

         Não dá mesmo para entender. E não é estranho que o comportamento do Mestre causasse perplexidade, pois os religiosos da época ensinavam que as “pessoas de bem” deveriam distanciar-se das “castas inferiores” como crianças, mulheres, mendigos, bêbados e criminosos. E tinham essa espécie de “apartheid santo” como condição para aproximação de Jeová.

         O propósito do ato incompreendido não é religioso; é o oposto disso, uma atitude que simboliza o dever-ser do reino de Deus, um exemplo de simplicidade, amor ao próximo, humildade, unidade e integração afetiva. O ato do Mestre tem o objetivo de explodir a ideia perniciosa da priorização dos dogmas e tradições religiosas, que trazem a reboque fanatismo, discriminação e injustiças.

         Jesus sempre manifestou repúdio a dogmas e ritos sacros sérios demais, por isso comparou os mais ilustres e venerados religiosos a sepulcros, que por fora são bem pintados, mas por dentro guardam restos mortais em decomposição.

         Lavar os pés dos discípulos é mais uma bomba a desmantelar por completo a estrutura de todas as religiões, seitas e teologias. Intensifica-se então o ódio a Cristo entre judeus, fariseus, saduceus, escribas e publicanos. Muitas seitas inimigas até se unem contra Jesus, como já haviam feito em relação a João Batista.

         Pedro resiste, no início, mas logo entende o recado do Mestre: no seu cristianismo a prioridade é o amor, que traz fraternidade, paz, justiça, liberdade (inclusive da escravidão religiosa); no reino de Deus não há lugar para dogmas, tradições, doutrinas e costumes religiosos, que causam desunião, fanatismo e ódio.

         - Senhor, se é assim então eu quero que me laves os pés, a cabeça e as mãos -. Pedro compreende. Mas os cristãos modernos ainda não.

         Nosso cristianismo é hierárquico-tradicionalista e político-mercantil. Os cristãos modernos adoram pastores, papas, padres, cantores gospel, políticos e até pessoas mortas. Não lhes importa o que Cristo ensinou, mas a interpretação medíocre que a maioria dos pregadores e teólogos apresentam sobre cada frase do Mestre. Aceitamos como verdades ensinamentos teológicos contrários às ideias de Cristo.

         O cristianismo brasileiro, especialmente, transformou-se numa grande farsa. Grande parte das igrejas cristãs uniram-se ao que há de pior na sociedade. Essas igrejas estão repletas de fanáticos, falsos moralistas e até políticos corruptos.

         A moda agora é vereador, deputado, senador e até Presidente  eleito pelas igrejas. Para defender os interesses das igrejas, dizem eles. Mas a igreja não pode ter interesse. Nenhum. A de Cristo não tem. Ela existe para defender os interesses dos oprimidos. Dos pobres, doentes, perseguidos, discriminados.

         Oitenta por cento dos brasileiros se dizem cristãos. Mas não seguem Cristo. Se toda essa gente seguisse o Mestre, o Brasil não teria se transformado nesse antro de corrupção, violência, fake news, ódio e injustiça.

         Feliz Páscoa aos cristãos de verdade!

Por Nilton Kasctin dos Santos (Professor e Promotor de Justiça)

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