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Canção do sofrimento. Por Nilton Kasctin dos Santos (Professor e Promotor de Justiça)
25/03/2021 22:03 em Opinião. Por Nilton dos Santos

        Além de rei e exímio guerreiro, Davi foi um grande músico, cantor, compositor e poeta. Compôs centenas de cânticos durante sua vida, deixando sempre transparecer com sinceridade todos os seus sentimentos nas músicas que fazia. Segundo os pesquisadores, sua última canção encontra-se registrada no livro de II Samuel capítulo 22.

         Quando compôs essa canção, Davi estava envolvido em um contexto de extremo sofrimento, pois: a) seu filho Absalão havia sido assassinado; b) fazia três anos que o povo de Israel sofria uma grande fome; c) ele comandava uma sangrenta guerra contra os filisteus. Além disso, Davi era velhinho e estava muito cansado em razão de todas as guerras, perseguições, crises políticas e financeiras na sua terra. Com tudo isso, o leitor já pode imaginar o conteúdo desse seu último cântico?

         Mas não é nada disso que você pensou. Se eu ou você estivéssemos no lugar desse ancião, certamente nossa canção deixaria escapar da alma um grito de pavor, um lamento de dor e profunda angústia. Entretanto, Davi compôs, tocou e cantou um dos mais belos hinos de ação de graças que se pode imaginar.

         Transcrevo parte da canção: "O Senhor é a minha rocha, a minha fortaleza e o meu libertador; O meu Deus é a minha rocha, em que me refugio; o meu escudo e o meu poderoso salvador. / Ele é a minha torre alta, o meu abrigo seguro. / Clamo ao Senhor, que é digno de louvor, e sou salvo dos meus inimigos. / As ondas da morte me cercaram; as torrentes da destruição
me aterrorizaram. / As cordas da sepultura me envolveram; as armadilhas da morte me confrontaram. / Na minha angústia, clamei ao Senhor; clamei ao meu Deus. Do seu templo ele ouviu a minha voz; o meu grito de socorro chegou aos seus ouvidos. / Ele abriu os céus e desceu; nuvens escuras estavam debaixo dos seus pés. / Montou sobre um querubim e voou; elevou-se sobre as asas do vento. / Ele atirou flechas e dispersou os inimigos, arremessou raios e os fez bater em retirada. / Das alturas estendeu a mão e me segurou; tirou-me de águas profundas. / Livrou-me do meu inimigo poderoso, dos meus adversários, que eram fortes demais para mim. / Eles me atacaram no dia da minha calamidade, mas o Senhor foi o meu amparo. / Tu és a minha lâmpada, ó Senhor! O Senhor ilumina-me as trevas. / Contigo posso avançar contra uma tropa; com o meu Deus posso transpor muralhas. / Ele é escudo para todos os que nele se refugiam. / Tu me dás o teu escudo de livramento; a tua ajuda me fez forte. / O Senhor vive! Bendita seja a minha Rocha! Exaltado seja Deus, a Rocha que me salva!”.

         A letra da canção pode ser dividida em quatro temas centrais bem definidos: 1º) nas dificuldades, só Deus é o nosso refúgio (vv. 2 e 3); 2º) na escuridão da vida, só Deus é a nossa luz (v. 29); ) quando estamos sem forças para caminhar, só Deus é a nossa força (vv. 33 e 34); 4º) Quando nosso futuro é obscuro e incerto, só Deus é a nossa esperança (v. 51).

         Temos uma tendência natural de não aceitar que Deus pode resolver aqueles problemas que mais nos perturbam. Primeiro as pessoas esgotam todos os outros meios para tentar solucionar o problema, lembrando-se de Deus apenas como última alternativa. Mas Deus está sempre perto de nós, esperando nossa iniciativa para movimentar-se logo em nosso auxílio.

         Claro que devemos continuar empregando tudo o que estiver em nosso alcance para resolver situações difíceis, mas sempre depois de entregarmos o problema nas mãos de Deus, que é nossa segurança, nossa luz, nossa força e nossa esperança, como cantou Davi. Só assim poderemos cantar em pleno sofrimento.

Por Nilton Kasctin dos Santos (Professor e Promotor de Justiça)

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